http://blogs.abril.com.br/propagando/2009/12/arrependimento-nao-mata-ensina.html
Eis o post do outro blog q fala das semelhanças de Iracema com Crepúsculo...
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Agora, a minha opinião sobre Crepúsculo
Depois de assistir ao filme Crepúsculo - que eu achei razoável - e depois de muito me insistirem pra ler os livros eu cedi. Essa foi a pior idéia que eu já tive na minha vida!
A tradução dos livros de Crepúsculo é a mais vagabunda que eu já vi, e quanto ao vocabulário super-hiper-mega-giga-master restrito que repete as mesmas palavras 32000 vezes eu nem vou fazer comentários!
Crepúsculo é um bom exemplo de um idéia interessante, mas mal aproveitada.
Agora eu vivo um dilema, todos me dizem q à medida q vai passando, os livros vão melhorando, então eu odeio o livro, mas sei que não vou conseguir viver se não ler os 4 livros, nem que seja para criticar e dizer que as pessoas são loucas.
Você consegue perceber que a autora fez pouquíssima pesquisa para escrever essa história. Ela exagera em elogios ao protagonista, mas resume o enredo da história. A repetição de elogios lembra o livro Iracema - mas Alencar pode... uma conhecida resolveu fazer um post só com comparações de paragrafos de Iracema com Crepúsculo, depois eu boto o link pra vocês verem - e o roteiro, a história acaba por ficar resumidíssima!
Era melhor que eu não tivesse lido nenhum dos livros!
P.S.: No artigo de Salem publicado mais cedo, ele afirma que os vampiros de Crepúsculo são vegetarianos e comem folhas. Na verdade, eles se consideram vegetarianos porque não bebem sangue humano, só de outros animais.
A tradução dos livros de Crepúsculo é a mais vagabunda que eu já vi, e quanto ao vocabulário super-hiper-mega-giga-master restrito que repete as mesmas palavras 32000 vezes eu nem vou fazer comentários!
Crepúsculo é um bom exemplo de um idéia interessante, mas mal aproveitada.
Agora eu vivo um dilema, todos me dizem q à medida q vai passando, os livros vão melhorando, então eu odeio o livro, mas sei que não vou conseguir viver se não ler os 4 livros, nem que seja para criticar e dizer que as pessoas são loucas.
Você consegue perceber que a autora fez pouquíssima pesquisa para escrever essa história. Ela exagera em elogios ao protagonista, mas resume o enredo da história. A repetição de elogios lembra o livro Iracema - mas Alencar pode... uma conhecida resolveu fazer um post só com comparações de paragrafos de Iracema com Crepúsculo, depois eu boto o link pra vocês verem - e o roteiro, a história acaba por ficar resumidíssima!
Era melhor que eu não tivesse lido nenhum dos livros!
P.S.: No artigo de Salem publicado mais cedo, ele afirma que os vampiros de Crepúsculo são vegetarianos e comem folhas. Na verdade, eles se consideram vegetarianos porque não bebem sangue humano, só de outros animais.
O crepúsculo de Drácula - Por Rodrigo Salem
- Retirado da Revista Bravo! de dezembro de 2009.
Cada época tem o Drácula que merece. As histórias de vampiro se incluem naquela categoria de mitos duradouros que, recontados de forma diferente em cada era, dizem muito sobre o espírito de seu tempo. Seguindo essa linha de pensamento, como interpretar o sucesso da saga literária Crepúsculo, da autora americana Stephanie Meyer - cujo subproduto mais recente, o filme Lua Nova, está em cartaz nos cinemas brasileiros? O que vampiros vegetarianos, que usam seus caninos afiados para perfurar alface e rúcula, têm a dizer sobre os tempos atuais? Para responder a essas perguntas, é necessário ir às origens do mito. Os primeiros relatos sobre as criaturas que um dia seriam conhecidas pelo nome de "vampiros" surgiram por volta do século 12. Durante mais de 200 anos, a superstição sobre o homem morto que volta à vida após o pôr do sol se disseminou pela Europa. A lenda começou a virar objeto de interesse cultural apenas no começo do século 19, quando o ítalo-britânico John Polidori escreveu o conto The Vampyre para a publicação inglesa New Monthly em 1819. O nobre errante que atraía mulheres inocentes para se alimentar de seu sangue foi inspirado em um companheiro de viagens chamado George Gordon Byron. Sim, ele mesmo, Lord Byron, o poeta que escreveu a mais arrebatadora versão do Don Juan (outro mito que atravessa eras) - e que se tornou popstar em sua época tanto pelos versos quanto pela vida aventurosa. De onde se depreende que a figura literária do vampiro é, na origem, romântica.
Em sua primeira encarnação literária importante, no entanto, o vampiro nada tinha de sedutor. Cada época, já se disse, tem o vampiro que merece, e o da era vitoriana é o Drácula, protagonista do romance de Bram Stoker escrito em 1897. Para confrontar a moral puritana daquele tempo, o autor criou um personagem que tinha mau hálito, pelos nas palmas das mãos e bigodinho branco. Todas essas características foram atenuadas na primeira versão cinematográfica do livro. O Drácula interpretado por Bela Lugosi no cinema, em 1931, tinha aspecto elegante, sotaque estrangeiro charmoso e modos formais. Apesar de ter formado a figura icônica do vampiro-mor, Bela Lugosi o interpretou desprovido de sexualidade. Essa pegada casta tem a ver com o fato de esse vampiro representar outra época, a da Grande Depressão. O filme não podia correr riscos financeiros em um mundo abalado pela crise de 1929.
O Drácula como conhecemos, de caninos afiados e mordidas no pescoço de belas mulheres, só ganhou esse aspecto no final da década de 50, quando foi encarnado no cinema por Christopher Lee. A força sexual do conde vampiro era evidente. Numa época em que o sexo era controlado por pensamentos autoritários, Lee mostrou suas presas antes de se debruçar no corpo entregue de sua amada, Mina Murray. Era a figura do libertino que a estudiosa Carol Fry, autora do artigo Fictional Conventions and Sexuality in Dracula ("Convenções Ficcionais e Sexualidade em Drácula"), publicado em 1972, dizia ser representada pelo homem que deixava marcas na mulher e a infectava a ponto de a vítima se tornar uma pária social. Mas o significado mais óbvio era o retrato do sexo enrustido da década de 50, um sexo reprimido sob a luz do dia, mas solto e tórrido no escuro do quarto.
Passado o período da revolução sexual, nos anos 60, esses seres românticos e calientes puderam finalmente se expressar livremente - e a figura do vampiro chegou a seu auge artístico em duas grandes obras-primas do cinema. A primeira é Nosferatu, O Fantasma da Noite, de Werner Herzog, de 1979. Poucas imagens são mais eróticas do que o corpo arfante de Isabelle Adjani no momento em que o vampiro de Klaus Kinski aproxima as presas da carne branquíssima de seu pescoço, num fotograma que lembra um quadro expressionista. "Não poder envelhecer é terrível. A morte não é o pior. Imagine durar séculos, vivendo a cada dia a mesma futilidade", diz o personagem em sua fala mais famosa.
O outro é o Drácula de Francis Ford Coppola, de 1992. Com o fim da era Reagan, o cineasta decidiu equilibrar a sedução do elegante conde vampírico, agora na pele charmosa de Gary Oldman, com sequências sexuais picantes. Provocou o Jonathan Harker de Keanu Reeves com três voluptuosas vampiras uma delas, a atriz Monica Bellucci, no começo da carreira -, criou uma cena de bestialismo entre o Drácula semitransformado e a garota Lucy Westenra (Sadie Frost) e até chegou ao ponto de imaginar Mina (Winona Ryder) seduzindo Van Helsing (Anthony Hopkins). Apesar do apelo sexual, Drácula era um vampiro com o sentimento humano em busca do amor eterno. Era o reflexo da juventude que abraçou o Nirvana, principal banda do movimento roqueiro grunge - um ritmo cru em sua forma, mas extremamente romântico em sua natureza e letras.
De certa forma, a autora Stephanie Meyer captou o espírito dos adolescentes do nosso tempo quando lançou o primeiro capítulo da tetralogia literária Crepúsculo. O romantismo do Drácula de Gary Oldman agora ganhava uma versão assexuada na adaptação do fenômeno para as telas em 2008. Edward (Robert Pattinson), o grande amor proibido da humana Bella (Kristen Stewart), não morde pescocinhos e tem o corpo brilhante como diamante ao se expor ao sol. Vampiros ecológicos, politicamente corretos e vegetarianos. Você consegue imaginar algo melhor para representar a adolescência emo, que procura respostas para a depressão pós-moderna em príncipes encantados que mudarão suas vidas chatas? OK, cada época tem o vampiro que merece, e os livros e filmes da série Crepúsculo até têm um ou outro momento divertido. Parafraseando Nosferatu, no entanto, pior do que morrer no auge é enfrentar uma longa e lenta decadência. Como essa dos vampiros que, privados de seu alimento vital - romantismo, sexo e sangue - parecem condenados a viver um eterno e tedioso crepúsculo.
Depois de inspirar obras primas da literatura e do cinema, os vampiros são transformados em vegetarianos insossos pela escritora Stephanie Meyer, dando início à triste decadência da espécie.
Cada época tem o Drácula que merece. As histórias de vampiro se incluem naquela categoria de mitos duradouros que, recontados de forma diferente em cada era, dizem muito sobre o espírito de seu tempo. Seguindo essa linha de pensamento, como interpretar o sucesso da saga literária Crepúsculo, da autora americana Stephanie Meyer - cujo subproduto mais recente, o filme Lua Nova, está em cartaz nos cinemas brasileiros? O que vampiros vegetarianos, que usam seus caninos afiados para perfurar alface e rúcula, têm a dizer sobre os tempos atuais? Para responder a essas perguntas, é necessário ir às origens do mito. Os primeiros relatos sobre as criaturas que um dia seriam conhecidas pelo nome de "vampiros" surgiram por volta do século 12. Durante mais de 200 anos, a superstição sobre o homem morto que volta à vida após o pôr do sol se disseminou pela Europa. A lenda começou a virar objeto de interesse cultural apenas no começo do século 19, quando o ítalo-britânico John Polidori escreveu o conto The Vampyre para a publicação inglesa New Monthly em 1819. O nobre errante que atraía mulheres inocentes para se alimentar de seu sangue foi inspirado em um companheiro de viagens chamado George Gordon Byron. Sim, ele mesmo, Lord Byron, o poeta que escreveu a mais arrebatadora versão do Don Juan (outro mito que atravessa eras) - e que se tornou popstar em sua época tanto pelos versos quanto pela vida aventurosa. De onde se depreende que a figura literária do vampiro é, na origem, romântica.
Em sua primeira encarnação literária importante, no entanto, o vampiro nada tinha de sedutor. Cada época, já se disse, tem o vampiro que merece, e o da era vitoriana é o Drácula, protagonista do romance de Bram Stoker escrito em 1897. Para confrontar a moral puritana daquele tempo, o autor criou um personagem que tinha mau hálito, pelos nas palmas das mãos e bigodinho branco. Todas essas características foram atenuadas na primeira versão cinematográfica do livro. O Drácula interpretado por Bela Lugosi no cinema, em 1931, tinha aspecto elegante, sotaque estrangeiro charmoso e modos formais. Apesar de ter formado a figura icônica do vampiro-mor, Bela Lugosi o interpretou desprovido de sexualidade. Essa pegada casta tem a ver com o fato de esse vampiro representar outra época, a da Grande Depressão. O filme não podia correr riscos financeiros em um mundo abalado pela crise de 1929.
O Drácula como conhecemos, de caninos afiados e mordidas no pescoço de belas mulheres, só ganhou esse aspecto no final da década de 50, quando foi encarnado no cinema por Christopher Lee. A força sexual do conde vampiro era evidente. Numa época em que o sexo era controlado por pensamentos autoritários, Lee mostrou suas presas antes de se debruçar no corpo entregue de sua amada, Mina Murray. Era a figura do libertino que a estudiosa Carol Fry, autora do artigo Fictional Conventions and Sexuality in Dracula ("Convenções Ficcionais e Sexualidade em Drácula"), publicado em 1972, dizia ser representada pelo homem que deixava marcas na mulher e a infectava a ponto de a vítima se tornar uma pária social. Mas o significado mais óbvio era o retrato do sexo enrustido da década de 50, um sexo reprimido sob a luz do dia, mas solto e tórrido no escuro do quarto.
Passado o período da revolução sexual, nos anos 60, esses seres românticos e calientes puderam finalmente se expressar livremente - e a figura do vampiro chegou a seu auge artístico em duas grandes obras-primas do cinema. A primeira é Nosferatu, O Fantasma da Noite, de Werner Herzog, de 1979. Poucas imagens são mais eróticas do que o corpo arfante de Isabelle Adjani no momento em que o vampiro de Klaus Kinski aproxima as presas da carne branquíssima de seu pescoço, num fotograma que lembra um quadro expressionista. "Não poder envelhecer é terrível. A morte não é o pior. Imagine durar séculos, vivendo a cada dia a mesma futilidade", diz o personagem em sua fala mais famosa.
O outro é o Drácula de Francis Ford Coppola, de 1992. Com o fim da era Reagan, o cineasta decidiu equilibrar a sedução do elegante conde vampírico, agora na pele charmosa de Gary Oldman, com sequências sexuais picantes. Provocou o Jonathan Harker de Keanu Reeves com três voluptuosas vampiras uma delas, a atriz Monica Bellucci, no começo da carreira -, criou uma cena de bestialismo entre o Drácula semitransformado e a garota Lucy Westenra (Sadie Frost) e até chegou ao ponto de imaginar Mina (Winona Ryder) seduzindo Van Helsing (Anthony Hopkins). Apesar do apelo sexual, Drácula era um vampiro com o sentimento humano em busca do amor eterno. Era o reflexo da juventude que abraçou o Nirvana, principal banda do movimento roqueiro grunge - um ritmo cru em sua forma, mas extremamente romântico em sua natureza e letras.
De certa forma, a autora Stephanie Meyer captou o espírito dos adolescentes do nosso tempo quando lançou o primeiro capítulo da tetralogia literária Crepúsculo. O romantismo do Drácula de Gary Oldman agora ganhava uma versão assexuada na adaptação do fenômeno para as telas em 2008. Edward (Robert Pattinson), o grande amor proibido da humana Bella (Kristen Stewart), não morde pescocinhos e tem o corpo brilhante como diamante ao se expor ao sol. Vampiros ecológicos, politicamente corretos e vegetarianos. Você consegue imaginar algo melhor para representar a adolescência emo, que procura respostas para a depressão pós-moderna em príncipes encantados que mudarão suas vidas chatas? OK, cada época tem o vampiro que merece, e os livros e filmes da série Crepúsculo até têm um ou outro momento divertido. Parafraseando Nosferatu, no entanto, pior do que morrer no auge é enfrentar uma longa e lenta decadência. Como essa dos vampiros que, privados de seu alimento vital - romantismo, sexo e sangue - parecem condenados a viver um eterno e tedioso crepúsculo.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Notícia da Rede Bahia:
Dona Cristina teve suas duas filhas levadas por uma casal de italianos. Uma tinha seis meses, a outra, 15 dias!
Eu não entendi ainda!
domingo, 1 de novembro de 2009
15 X 10
Li no BBC online uma notícia que me deixou estupefato!
Uma garota de 15 anos foi estuprada por 10 homens diferentes, alguns deles menores de idade, no meio da rua, as pessoas viram e ninguém, NINGUÉM fez NADA!
O delegado da cidade disse que era a 1ª vez, em 15 anos de delegacia, que ele via um caso como esse! 5 dos 10 homens foram detidos e 3 menores de idade (com 14, 16 e 17 anos) estão sendo indiciados como se fossem maiores (justíssimo)!
Agora eu pergunto, onde é que vamos parar?
Isso me fez lembrar da famosa comemoração do Dia da Mulher, 8 de março - dia internacional...
A maioria das pessoas conhecem aquela historinha que a Pró contava em que 200 mulheres que faziam greve numa empresa foram trancadas pelos donos do local e queimadas.
Essa história possui um furo muito grande, não? Afinal, o que 200 mulheres estaria fazendo dentro da empresa se elas estavam em greve? Isso não é um furo. A verdade é que essa história é uma mentira! O que aconteceu na realidade foi:
200 mulheres, que trabalhavam numa empresa por salários bem inferiores aos masculinos estavam ocupando as vagas de alguns homens. Os desempregaDOS da cidade, então, resolveram queimá-las dentro do local de trabalho.
Essas mulheres foram queimadas porque estava se sujeitando a receber salários menores para virarem cidadãs!
Então, no dia das mulheres, eu dou meus pêsames... Pêsames porque foi necessário que 200 mulheres virassem churrasco de calçola para que 1 vez ao ano as pessoas lembrassem que mulher também é gente!
A prova de que as pessoas esquecem da mulher no resto do ano foi esse caso nos EUA!
Simplesmente incompreensível!
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Tabacaria - Álavo de Campos (Fernando Pessoa)
- Não sou nada.
- Nunca serei nada.
- Não posso querer ser nada.
- À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
- Janelas do meu quarto,
- Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
- (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
- Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
- Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
- Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
- Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
- Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
- Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
- Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
- Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
- E não tivesse mais irmandade com as coisas
- Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
- A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
- De dentro da minha cabeça,
- E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
- Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
- Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
- À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
- E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
- Falhei em tudo.
- Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
- A aprendizagem que me deram,
- Desci dela pela janela das traseiras da casa,
- Fui até ao campo com grandes propósitos.
- Mas lá encontrei só ervas e árvores,
- E quando havia gente era igual à outra.
- Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
- Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
- Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
- E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
- Génio? Neste momento
- Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
- E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
- Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
- Não, não creio em mim.
- Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
- Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
- Não, nem em mim...
- Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
- Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
- Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
- Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
- E quem sabe se realizáveis,
- Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
- O mundo é para quem nasce para o conquistar
- E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
- Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
- Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
- Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
- Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
- Ainda que não more nela;
- Serei sempre o que não nasceu para isso;
- Serei sempre só o que tinha qualidades;
- Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
- E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
- E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
- Crer em mim? Não, nem em nada.
- Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
- O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
- E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
- Escravos cardíacos das estrelas,
- Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
- Mas acordámos e ele é opaco,
- Levantámo-nos e ele é alheio,
- Saímos de casa e ele é a terra inteira,
- Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
- (Come chocolates, pequena;
- Come chocolates!
- Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
- Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
- Come, pequena suja, come!
- Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
- Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
- Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
- Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
- A caligrafia rápida destes versos,
- Pórtico partido para o Impossível.
- Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
- Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
- A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
- E fico em casa sem camisa.
- (Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
- Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
- Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
- Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
- Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
- Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
- Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
- Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
- Meu coração é um balde despejado.
- Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
- A mim mesmo e não encontro nada.
- Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
- Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
- Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
- Vejo os cães que também existem,
- E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
- E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
- Vivi, estudei, amei, e até cri,
- E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
- Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
- E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
- (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
- Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
- E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
- Fiz de mim o que não soube,
- E o que podia fazer de mim não o fiz.
- O dominó que vesti era errado.
- Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
- Quando quis tirar a máscara,
- Estava pegada à cara.
- Quando a tirei e me vi ao espelho,
- Já tinha envelhecido.
- Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
- Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
- Como um cão tolerado pela gerência
- Por ser inofensivo
- E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
- Essência musical dos meus versos inúteis,
- Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
- E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
- Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
- Como um tapete em que um bêbado tropeça
- Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
- Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
- Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
- E com o desconforto da alma mal-entendendo.
- Ele morrerá e eu morrerei.
- Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
- A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
- Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
- E a língua em que foram escritos os versos.
- Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
- Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
- Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
- Sempre uma coisa defronte da outra,
- Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
- Sempre o impossível tão estúpido como o real,
- Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
- Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
- Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
- E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
- Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
- E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
- Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
- E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
- Sigo o fumo como uma rota própria,
- E gozo, num momento sensitivo e competente,
- A libertação de todas as especulações
- E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
- Depois deito-me para trás na cadeira
- E continuo fumando.
- Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
- (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
- Talvez fosse feliz.)
- Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
- O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
- Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
- (O dono da Tabacaria chegou à porta.)
- Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
- Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
- Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.
Bastardos Inglórios

É, domingo fui assistir a Bastardos Inglórios, o novo filme de Tarantino.
Eu já esperava algo excelente, uma vez que Quentin nunca me decepcionou, mas esse filme superou completamente as minhas expectativas! Faz muito tempo que eu não saio completamente satisfeito do cinema como eu saí após assistir a esse já clássico! A trilha sonora, como sempre nos filmes desse diretor e roteirista, é inesquecível!
A história se passa na França, durante a 2ª Guerra Mundial. Um grupo de judeus americanos e alemães, os Inglórios Bastardos, é mandado para esse país no intuito de matar nazistas. Ao mesmo tempo o filme também conta a história de Shosanna, uma judia que tem sua família morta pelo caçador de judeus (Christoph Waltz - melhor interpretação do filme) e acaba, no futuro, com outro nome, por se tornar a dona de um cinema onde ocorrerá a Premier de um filme nazista.
Revelando um Hitler ironizado além de todo o humor sempre encontrado em seus filmes, Tarantino devolve ao cinema toda a graça e a glória que ele estava precisando, mesmo quando fala dos assuntos mais sérios! Por fim, o filme termina com duas cenas completamente catárticas, que provam não haver ninguém melhor que ELE, para filmar a vingança, embora isso todos já soubessem, em face a Kill Bill!
Imperdível, insuperável, irresistível, Bastardos Inglórios é um daqueles filmes que merecerá a prateleira de sua casa quando for lançado em DVD (ou Blue-Ray, pros milionários)!
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